Preocupa-me mais a falta de inteligência natural do que o excesso de inteligência artificial

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Muito se tem falado sobre o investimento em Inteligência Artificial em todo o mundo e, mais recentemente, também em Portugal. Isso entusiasma algumas pessoas, preocupa outras e, no meio desta discussão toda, há uma coisa que me preocupa bastante mais do que a velocidade a que a tecnologia está a evoluir: a pouca atenção que estamos a dar à inteligência humana.
Ao longo dos últimos anos tenho reparado num declínio que me parece cada vez mais evidente em capacidades que deviam ser básicas: pensamento crítico, criatividade, bom senso, curiosidade, capacidade de questionar aquilo que vemos e ouvimos e, acima de tudo, capacidade de pensar.
Uma rampa de madeira no Portinho da Arrábida
Isto é particularmente visível nos meios digitais, talvez porque aí temos contacto com muito mais pessoas, opiniões e comportamentos, mas não acontece apenas online.
Este fim de semana, por exemplo, numa visita ao Portinho da Arrábida, não pude deixar de passar e reparar num daqueles locais que se tornaram muito populares nas redes sociais. Uma rampa de madeira, onde muitas pessoas param para tirar uma fotografia que dá a sensação de que estão a cair pela serra abaixo.

Além da fila para tirar uma fotografia, o que me chamou a atenção foi ver uma mãe com três crianças, uma ao colo e duas pela mão, a aproximar-se daquele precipício de dezenas de metros para tirar fotografias. Não sei exatamente o que aconteceu depois e também não quero fazer aqui um julgamento sobre aquela família em particular, mas vim o resto da viagem a pensar.
Estamos em plena Serra da Arrábida, um sítio onde praticamente em qualquer ponto conseguimos uma fotografia extraordinária! E, ainda assim, há qualquer coisa que leva pessoas comuns a, literalmente, arriscarem a sua vida e dos seus filhos por uma foto que, à exceção de uns likes, nada acrescenta às suas vidas.

Esta história não tem propriamente a ver com Inteligência Artificial, nem sequer tem necessariamente a ver com tecnologia, mas para mim ajuda a mostrar uma coisa importante: quando o digital evolui mais depressa do que a nossa capacidade para perceber os seus efeitos, avaliar incentivos e tomar boas decisões, podemos ter um problema.
E é um pouco isto que também me preocupa na Inteligência Artificial.
Não me preocupa tanto que a tecnologia esteja a tornar-se demasiado inteligente. Preocupa-me mais a possibilidade de, ao mesmo tempo, estarmos a exercitar cada vez menos a nossa inteligência, precisamente aquelas capacidades que nos permitem usar melhor qualquer ferramenta: criatividade, pensamento crítico, julgamento, bom senso e capacidade de distinguir aquilo que faz sentido daquilo que apenas parece fazer sentido.
Quanto mais poderosa for a tecnologia que colocamos nas mãos das pessoas, mais importantes se tornam estas capacidades. E é aqui que acho que às vezes simplificamos demasiado a conversa.
O problema não está no trator
Dou um exemplo simples: eu não sei conduzir um trator. Se amanhã comprar um trator topo de gama, com mais potência, mais tecnologia e todos os sistemas possíveis, não passo automaticamente a saber lavrar a terra ou a trabalhar num terreno.
Passo a ter uma máquina extraordinária nas mãos, mas continuo sem saber utilizá-la verdadeiramente e pode até acontecer o contrário: quanto mais potente for o trator, mais depressa me posso despistar e maiores podem ser os estragos que consigo causar.
O problema, nesse caso, não está no trator. Está na diferença entre a capacidade da ferramenta e a capacidade de quem a está a utilizar. Com a Inteligência Artificial acontece exatamente a mesma coisa.
Podemos ter acesso aos modelos mais avançados do mundo, a agentes capazes de executar tarefas por nós e a sistemas que escrevem, programam, analisam, pesquisam, criam imagens, tomam decisões e automatizam processos, mas isso não significa automaticamente que sabemos o que lhes devemos pedir, se aquilo que fizeram está correto, se a decisão faz sentido ou sequer se aquele era o problema que devíamos estar a resolver.
O investimento de que falamos pouco
É aqui que, para mim, está uma parte importante da discussão sobre Inteligência Artificial que estamos a deixar muitas vezes para segundo plano. Falamos muito sobre quanto estamos a investir em Inteligência Artificial e muito pouco sobre o pouco que estamos a investir na nossa própria inteligência.
E não estou a falar apenas de dinheiro. Estou a falar de aprendizagem, de continuar a estudar, de ler, de experimentar, de discutir ideias com pessoas que pensam de forma diferente, de criar, de errar, de mudar de opinião, de continuar curioso e de não aceitar automaticamente aquilo que aparece no ecrã só porque está bem escrito e parece convincente.
Estou a falar de continuar a exercitar capacidades que facilmente podemos começar a entregar às máquinas sem sequer darmos por isso.
Qualquer tecnologia que evolua mais depressa do que a nossa capacidade para a compreender e utilizar pode tornar-se um problema, não porque a tecnologia seja má, mas porque continuamos a ser nós a decidir o que fazemos com ela.
Continuar a aprender
É por isso que continuo a acreditar tanto na aprendizagem ao longo da vida. Não apenas para aprender a utilizar Inteligência Artificial, mas para continuar a desenvolver aquilo que temos de mais humano: criatividade, pensamento crítico, julgamento, curiosidade e capacidade de aprender.
Independentemente daquilo que a tecnologia nos venha a trazer, continuar a aprender é, para mim, uma das melhores garantias de continuarmos a fazer parte desse futuro, como protagonistas, em vez de ficarmos apenas a vê-lo a passar.
Talvez seja esse o investimento de que devíamos falar um pouco mais. Também tem sentido que a tecnologia está a evoluir mais depressa do que a nossa capacidade para a acompanhar com bom senso, pensamento crítico e inteligência humana?