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Preocupa-me mais a falta de inteligência natural do que o excesso de inteligência artificial

Por André Bacêlo e Costa
André Bacêlo e Costa
Publicado
André Bacêlo e Costa em palco, sobre o título Preocupa-me mais a falta de inteligência natural do que o excesso de inteligência artificial

Muito se tem falado sobre o investimento em Inteligência Artificial em todo o mundo e, mais recentemente, também em Portugal. Isso entusiasma algumas pessoas, preocupa outras e, no meio desta discussão toda, há uma coisa que me preocupa bastante mais do que a velocidade a que a tecnologia está a evoluir: a pouca atenção que estamos a dar à inteligência humana.

Ao longo dos últimos anos tenho reparado num declínio que me parece cada vez mais evidente em capacidades que deviam ser básicas: pensamento crítico, criatividade, bom senso, curiosidade, capacidade de questionar aquilo que vemos e ouvimos e, acima de tudo, capacidade de pensar.

Uma rampa de madeira no Portinho da Arrábida

Isto é particularmente visível nos meios digitais, talvez porque aí temos contacto com muito mais pessoas, opiniões e comportamentos, mas não acontece apenas online.

Este fim de semana, por exemplo, numa visita ao Portinho da Arrábida, não pude deixar de passar e reparar num daqueles locais que se tornaram muito populares nas redes sociais. Uma rampa de madeira, onde muitas pessoas param para tirar uma fotografia que dá a sensação de que estão a cair pela serra abaixo.

Publicações do local no Instagram
Publicações do local no Instagram

Além da fila para tirar uma fotografia, o que me chamou a atenção foi ver uma mãe com três crianças, uma ao colo e duas pela mão, a aproximar-se daquele precipício de dezenas de metros para tirar fotografias. Não sei exatamente o que aconteceu depois e também não quero fazer aqui um julgamento sobre aquela família em particular, mas vim o resto da viagem a pensar.

Estamos em plena Serra da Arrábida, um sítio onde praticamente em qualquer ponto conseguimos uma fotografia extraordinária! E, ainda assim, há qualquer coisa que leva pessoas comuns a, literalmente, arriscarem a sua vida e dos seus filhos por uma foto que, à exceção de uns likes, nada acrescenta às suas vidas.

Fotografia pessoal da Serra da Arrábida num dos miradouros ao longo da estrada
Fotografia pessoal da Serra da Arrábida num dos miradouros ao longo da estrada

Esta história não tem propriamente a ver com Inteligência Artificial, nem sequer tem necessariamente a ver com tecnologia, mas para mim ajuda a mostrar uma coisa importante: quando o digital evolui mais depressa do que a nossa capacidade para perceber os seus efeitos, avaliar incentivos e tomar boas decisões, podemos ter um problema.

E é um pouco isto que também me preocupa na Inteligência Artificial.

Não me preocupa tanto que a tecnologia esteja a tornar-se demasiado inteligente. Preocupa-me mais a possibilidade de, ao mesmo tempo, estarmos a exercitar cada vez menos a nossa inteligência, precisamente aquelas capacidades que nos permitem usar melhor qualquer ferramenta: criatividade, pensamento crítico, julgamento, bom senso e capacidade de distinguir aquilo que faz sentido daquilo que apenas parece fazer sentido.

Quanto mais poderosa for a tecnologia que colocamos nas mãos das pessoas, mais importantes se tornam estas capacidades. E é aqui que acho que às vezes simplificamos demasiado a conversa.

O problema não está no trator

Dou um exemplo simples: eu não sei conduzir um trator. Se amanhã comprar um trator topo de gama, com mais potência, mais tecnologia e todos os sistemas possíveis, não passo automaticamente a saber lavrar a terra ou a trabalhar num terreno.

Passo a ter uma máquina extraordinária nas mãos, mas continuo sem saber utilizá-la verdadeiramente e pode até acontecer o contrário: quanto mais potente for o trator, mais depressa me posso despistar e maiores podem ser os estragos que consigo causar.

O problema, nesse caso, não está no trator. Está na diferença entre a capacidade da ferramenta e a capacidade de quem a está a utilizar. Com a Inteligência Artificial acontece exatamente a mesma coisa.

Podemos ter acesso aos modelos mais avançados do mundo, a agentes capazes de executar tarefas por nós e a sistemas que escrevem, programam, analisam, pesquisam, criam imagens, tomam decisões e automatizam processos, mas isso não significa automaticamente que sabemos o que lhes devemos pedir, se aquilo que fizeram está correto, se a decisão faz sentido ou sequer se aquele era o problema que devíamos estar a resolver.

O investimento de que falamos pouco

É aqui que, para mim, está uma parte importante da discussão sobre Inteligência Artificial que estamos a deixar muitas vezes para segundo plano. Falamos muito sobre quanto estamos a investir em Inteligência Artificial e muito pouco sobre o pouco que estamos a investir na nossa própria inteligência.

E não estou a falar apenas de dinheiro. Estou a falar de aprendizagem, de continuar a estudar, de ler, de experimentar, de discutir ideias com pessoas que pensam de forma diferente, de criar, de errar, de mudar de opinião, de continuar curioso e de não aceitar automaticamente aquilo que aparece no ecrã só porque está bem escrito e parece convincente.

Estou a falar de continuar a exercitar capacidades que facilmente podemos começar a entregar às máquinas sem sequer darmos por isso.

Qualquer tecnologia que evolua mais depressa do que a nossa capacidade para a compreender e utilizar pode tornar-se um problema, não porque a tecnologia seja má, mas porque continuamos a ser nós a decidir o que fazemos com ela.

Continuar a aprender

É por isso que continuo a acreditar tanto na aprendizagem ao longo da vida. Não apenas para aprender a utilizar Inteligência Artificial, mas para continuar a desenvolver aquilo que temos de mais humano: criatividade, pensamento crítico, julgamento, curiosidade e capacidade de aprender.

Independentemente daquilo que a tecnologia nos venha a trazer, continuar a aprender é, para mim, uma das melhores garantias de continuarmos a fazer parte desse futuro, como protagonistas, em vez de ficarmos apenas a vê-lo a passar.

Talvez seja esse o investimento de que devíamos falar um pouco mais. Também tem sentido que a tecnologia está a evoluir mais depressa do que a nossa capacidade para a acompanhar com bom senso, pensamento crítico e inteligência humana?

Vamos continuar a moldar o futuro digital juntos?

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